PARTE I · CAPÍTULO 1
A concupiscência: origem, etimologia e significado
A natureza do desejo, suas manifestações e seu significado nas Escrituras Sagradas
“Tenho desejado ansiosamente comer convosco esta Páscoa, antes que padeça.”Lucas 22:15
A compreensão de um conceito teológico começa pela investigação de sua linguagem. Antes de examinar a concupiscência da carne, é necessário compreender o significado da palavra, sua origem histórica, suas correspondências linguísticas nas Escrituras e os diferentes sentidos que assume nos contextos bíblicos.
A palavra desejo não possui necessariamente uma conotação negativa nas Escrituras. Existem desejos legítimos, desejos intensos e desejos que se tornam contrários à vontade divina. Não é linguística nem exegeticamente correto atribuir um significado moral negativo a todas as ocorrências de palavras relacionadas ao desejo.
1. A origem latina da palavra
A palavra portuguesa concupiscência tem origem no latim concupiscentia, relacionado ao verbo concupiscere — desejar intensamente, ansiar, cobiçar. Sua formação associa o prefixo con- ao verbo cupere, ligado ao desejo.
Com o desenvolvimento da linguagem teológica do cristianismo latino, o termo adquiriu também um uso moral e doutrinário específico. É importante, porém, uma distinção: concupiscência não é a palavra empregada pelos autores do Novo Testamento. É uma tradução. A investigação bíblica, portanto, não pode terminar no latim — precisa avançar até os idiomas originais.
2. O principal termo grego
O substantivo relaciona-se ao verbo ἐπιθυμέω (epithyméō), desejar, ansiar ou cobiçar. A palavra é formada por elementos gregos que incluem epi e uma base relacionada a thymós; contudo, seu significado bíblico não deve ser deduzido apenas pela decomposição desses elementos. É uma regra fundamental da exegese: a etimologia ilumina, mas o uso e o contexto decidem.
O desejo não é necessariamente pecaminoso
Uma das demonstrações mais importantes encontra-se em Lucas 22:15. No texto grego, Jesus emprega a construção ἐπιθυμίᾳ ἐπεθύμησα (epithymía epethýmēsa) — um substantivo combinado com um verbo da mesma família, construção enfática que expressa a intensidade de seu desejo.
Se epithymía fosse necessariamente sinônimo de pecado, sua utilização nessa declaração de Jesus produziria uma dificuldade interpretativa insuperável. O sentido moral do termo depende do contexto. Em Filipenses 1:23, Paulo usa a palavra para expressar o desejo de partir e estar com Cristo; em 1 Tessalonicenses 2:17, a mesma família lexical descreve seu anseio de rever os irmãos.
3. O uso negativo de epithymía
“Mas cada um é tentado, quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência.”
Tiago relaciona o desejo à atração e à sedução que conduzem à tentação e, em seguida, apresenta uma progressão figurada: a concupiscência concebe, dá à luz o pecado, e o pecado, consumado, gera a morte. Não se trata da simples existência de uma necessidade humana, mas de um desejo que participa de uma dinâmica moralmente destrutiva.
Tiago 1:13 estabelece ainda uma afirmação fundamental: ninguém deve dizer que é tentado por Deus. O apóstolo distingue a santidade divina da origem da tentação para o mal e direciona a atenção à própria concupiscência humana. O texto preserva a responsabilidade humana diante do pecado.
4. A concupiscência em 1 João 2:16
| Grego | Transliteração | Tradução |
|---|---|---|
| ἡ ἐπιθυμία τῆς σαρκός | hē epithymía tēs sarkós | a concupiscência da carne |
| ἡ ἐπιθυμία τῶν ὀφθαλμῶν | hē epithymía tōn ophthalmōn | a concupiscência dos olhos |
| ἡ ἀλαζονεία τοῦ βίου | hē alazoneía tou bíou | a soberba da vida |
Antes de apresentar as três expressões, João adverte: “Não ameis o mundo, nem o que no mundo há” (v. 15). O apóstolo não condena a criação material; ele opõe aquilo que procede do Pai àquilo que caracteriza o mundo em oposição à vontade divina. No versículo 17, apresenta a transitoriedade do mundo e a permanência daquele que faz a vontade de Deus.
A concupiscência da carne associa epithymía a sárx — e sua compreensão completa exigirá o estudo próprio do conceito bíblico de carne. A concupiscência dos olhos não ensina que olhar seja pecado, mas descreve um desejo que se relaciona com aquilo que é contemplado. A soberba da vida emprega ἀλαζονεία (alazoneía) — arrogância, ostentação, pretensão — e, observe-se, não utiliza a palavra epithymía. As três expressões estão reunidas no mesmo argumento, mas possuem construções lexicais distintas.
5. Os termos hebraicos relacionados ao desejo
| Termo | Transliteração | Campo semântico |
|---|---|---|
| תַּאֲוָה | ta'avah | Desejo, anseio, cobiça |
| חָמַד | chamad | Desejar, cobiçar, considerar precioso |
| אָוָה | avah | Desejar, ansiar |
| נֶפֶשׁ | nephesh | Vida, ser, alma, apetite — conforme o contexto |
| ἐπιθυμία | epithymía | Desejo, anseio, cobiça |
| ἐπιθυμέω | epithyméō | Desejar, ansiar |
| ὄρεξις | órexis | Desejo, apetite |
| ἐπιπόθησις | epipóthēsis | Anseio, desejo intenso |
6. Três distinções indispensáveis
- Necessidade não é concupiscência. Sentir fome, sede, necessidade de descanso, afeto e intimidade não constitui pecado.
- Desejo não é necessariamente transgressão. O próprio Jesus experimentou desejos legítimos (Lucas 22:15).
- O desejo desordenado pode tornar-se senhor da vontade. Quando a pessoa passa a justificar a desobediência para satisfazer aquilo que deseja, o problema já não é sentir — é permitir que o desejo governe as decisões.
“Todas as coisas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma.”
A classificação moral de um desejo não se determina pela intensidade com que é experimentado. É necessário examinar seu objeto, sua orientação e sua relação com os mandamentos divinos.
Conclusão do capítulo
A investigação etimológica e lexical demonstra que concupiscência está relacionada à ideia de desejo intenso, anseio e cobiça. As Escrituras, porém, não apresentam todas as manifestações do desejo como pecaminosas. O Novo Testamento utiliza epithymía em contextos positivos e negativos; o Antigo Testamento, com ta'avah, chamad e avah, demonstra a mesma amplitude. Uma interpretação responsável não pode partir da ideia de que todo desejo constitui pecado. É preciso distinguir a capacidade humana de desejar da manifestação de desejos que se tornam contrários à vontade de Deus.